Fáb

Témoignage de Fábio Moreira cinéaste.

Propos recueillis par Irwin Henry

Confesso que os primeiros manifestos, acompanhei pela internet. Não pela TV, mas unicamente pela rede à procura de maior imparcialidade e para também ajudar. Divulgava todas as postagens diversas a respeito destas manifestações, motivos, locais de encontro, trajetos e novos itens a serem acrescidos como reivindicações.

No começo, ao ver manchetes de jornais, via-se claramente o descompasso entre a mídia mais tradicional, esta pedindo maior repressão, enquanto na internet via-se claramente o seu caráter pacifista, apenas de reivindicação e protesto.

Na segunda manifestação, houve essa repressão a mais e as maiores vitimas foram os jornalistas destes principais jornais. Foram imagens fortes de uma jovem repórter com o rosto sangrando, e também tristes como outro jornalista que tinha chance mínima de ter a visão de volta, ambos foram vítimas de tiros de borracha vindos da PM (aquela corporação policial criada nos tempos do regime militar).

Na manhã seguinte, os jornais se dividiram e já tínhamos aqueles com capas criticando a atitude da polícia. Felizmente, esta violência parecia ser coisa apenas daquele dia, novas manifestações reafirmando a postura pacifista vieram e, desta vez, um comportamento exemplar da polícia. Ainda assim, grande parte dos manifestantes começam a atacar a polícia, vários mesma no face criticando a postura da polícia, dentre estes, o mais interessante dizia “vivemos o AI-5 de Alckmin”, o nosso governador de São Paulo

Pela internet, num blog, havia uma carta de um policial se manifestando a respeito do ocorrido anteriormente, nela, ele mencionava o fato de parte da corporação não apoiar o governo estadual, a questão de terem baixos salários, mas também o dever deles, de obedecerem ordens.

Felizmente o movimento se expandiu para outras partes do país. Infelizmente, tivemos casos de vandalismo. Em alguns casos, eram jovens manifestantes que se empolgavam, coisa que qualquer psicólogo ou estadista sabe que acontece, em outros casos, grupos infiltrados aproveitando a multidão.

Finalmente, o governo estadual e municipal cederam na principal reivindicação, a revogação do aumento da tarifa do transporte público. A manifestação que estaria marcada para o dia seguinte, foi mantida, mas desta vez para comemorar. Foi quando decidi sair da frente do monitor e fazer o que tanto queria, realmente participar.

O que eu vi, preocuparia a qualquer pessoa que conheça um pouco mais de história.

No dia antes da comemoração, a internet parecia totalmente unida num só coro:

Abaixo a PEC 37 e 33 (medidas que diminuiriam os poderes de um dos órgãos fiscalizador de maior prestígio no país, O Ministério Público, o qual nos  revelou  principais escândalos envolvendo autoridades públicas)

Renúncia de Renan Calheiros (presidente do Senado  e envolvido em várias suspeitas de irregularidades e crimes)

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Fim do voto secreto (algumas votações dos parlamentares brasileiros são feitas em segredo, sem que ninguém possa saber os votos quem votou em quem. Foi assim que Jaqueline Roriz, deputada flagrada em vídeo recebendo propina indevida e absolvida em votação secreta)

Transformação de corrupção em crime hediondo (tipo de crime no Brasil no qual as penas são as mais latas -30 anos de detenção- e sem direito a redução e pena)

Fim de privilégios aos políticos brasileiros (hoje, um parlamentar, tem direito a auxílio hotel, auxílio transporte o que  inclui transporte aéreo, auxílio moradia, e outros auxílios)

Vários posts no face repetiam todas estas reivindicações. Como disse, na rede, parecíamos um grande coro único, um organismo perfeito, unido e esclarecido. As ruas são outra coisa.

Saindo do metro indo em direção à Avenida Paulista, um cartaz contra Marcos Feliciano (presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias), este é um pastor com vários vídeos na internet nos quais mostra-se preconceituoso, racista e homofóbico (o mais hediondo de todos estes vídeos, na minha opinião, é um no qual ele justifica a morte de John Lennon como uma intervenção divina). Também no metro, um outro cartaz pedindo a retirada de Haddad da prefeitura de São Paulo. Estes eram uma série de outros cartazes.

Junto com as pessoas, alguns poucos e isolados cartazes contra Renan Calheiros, me número um pouco maior, contra a PEC 37.

Vários gritos esporádicos pedindo ordem,  educação, saúde e cosias assim que todos querem mais, mas também muito vagas. Outras cartazes contra alguns políticos e um escrito “fora Dilma”, nossa presidenta.

Os movimentos manifestantes,  até este momento, tinha uma postura apartidária, a idéia era que as reivindicações independiam de partidos e evitar a manipulação do movimento em pró de algum partido oportunista. Porém, o que vi, foi movimentos contra partidos, nacionalistas, brigando com qualquer um que portasse uma bandeira partidária.

Depois de voltar para casa, soube da intenção de um partido em criar um congresso para gerir o país no caso de vacância da presidência. Durante estes protestos, houve hostilização à mídia, jornalistas, dois carros de emissoras foram queimados, o congresso nacional teve duas tentativas de invasão e o MPL (Movimento Passe Livre) que até há pouco era o único líder dos manifestos e aquele com quem podia-se negociar, havia dito que já não participaria das manifestações.

Temos agora várias pessoas nas ruas indignadas por motivos dos mais variados, muitos justos. Ver todas essas pessoas nas ruas foi uma das cosias mais lindas que vi neste país, ao mesmo tempo que sorria com os gritos, cantorias, alegria e engajamento destas pessoas, preocupava-me com algumas  divisões. Se fizermos o certo sem uma liderança, seremos um exemplo positivo para o mundo, se não... 

Fábio  Moreira cinéaste

Photos Lis Ventura photographe professionnelle.